Pesquisador sugere yoga para pessoas com esclerose múltipla

Em tese de doutorado Gerson de Oliveira, professor de yoga, mostra o emprego dessa técnica como caminho de integração na abordagem de pessoas com esclerose múltipla (EM). O objetivo principal do trabalho foi o de organizar o conhecimento do yoga como uso terapêutico nessas pessoas. Constituíram seus objetivos específicos apresentar uma abordagem teórica sobre o yoga através da história, resgatando tradições e conceitos; realizar uma revisão acadêmica sistemática sobre o yoga relacionada à EM; e relatar suas experiências e intervenções com yoga em pessoas com a doença, considerando tanto os pontos de vista de pesquisadores quanto delas.

É em relação a este último quesito que o trabalho assume particular importância ao procurar entender os reais problemas e dificuldades desse público e, depois, com base em uma experiência de 12 anos, propor condições de trabalho e terapias que se mostraram viáveis com a prática do yoga. Neste particular não há insensibilidade ou indiferença que resista às vivências do pesquisador que confessa: “Vivo no dia-a-dia situações que me provocam sempre profunda emoção”.

Com a abordagem ele espera fornecer subsídios, escassos na literatura, para que, tanto familiares e cuidadores, como profissionais que atendem portadores de EM possam atuar e contribuir de maneira mais efetiva para suas melhoras física e mental e para uma maior integração na sociedade. Em decorrência das limitações das pesquisas sobre o tema e ciente das incertezas que acompanham estudos como este, o autor, no frontispício de sua publicação, menciona o aforisma de Mahatma Gandhi: “Você não sabe quais resultados virão da sua ação, mas se você não fizer nada não existirão resultados”.

Para garantir a contextualização do trabalho, Gerson o dividiu em blocos. Inicialmente apresenta um estudo teórico sobre o yoga, mostrando sua origem, conceitos que o permeiam, o desenvolvimento do yoga no Ocidente, as pesquisas científicas a ele relacionado, seu desenvolvimento no Brasil e, através de uma revisão sistemática, comenta dissertações e teses sobre o yoga em instituições brasileiras. Um segundo bloco mostra uma revisão sistemática sobre o yoga direcionado para pessoas com EM.

Em outro capítulo são apresentadas as experiências corporais, sob o ponto de vista de pessoas com EM, por meio de entrevistas em grupo. Por fim, propõe um programa de yoga para pessoas com EM, calcado em suas experiências de 12 anos, abordando os cuidados e possibilidades de práticas para essa população. Para o pesquisador, os artigos, dissertações e teses analisados e os resultados alcançados por ele indicam que a prática de yoga é viável e favorável para pessoas com EM. Ele espera que o trabalho possa servir como ferramenta para estimular futuros estudos na área.

Esclerose múltipla

A esclerose múltipla é uma doença neurológica, crônica, progressiva, decorrente de uma inflamação na bainha de mielina, constituída pela gordura em que estão os neurônios e responsável pelo processo de condução dos impulsos elétricos do sistema nervoso. A destruição de partes dela compromete a condução dos impulsos nervosos. Trata-se de uma doença autoimune, ou seja, o próprio sistema de defesa ataca o organismo. Esclerose porque provoca o endurecimento de partes superficiais dessa bainha, comprometendo o envio dos impulsos elétricos, e múltipla porque pode se manifestar em qualquer parte do sistema nervoso, como o cérebro ou a medula espinhal. Dependendo da região e da extensão da bainha comprometida manifestam-se efeitos diversos. Não se conhecem bem as causas da EM. Em geral se aceita que se trata da manifestação de um vírus em decorrência de uma predisposição genética. A faixa etária de seu maior acometimento situa-se entre 20 e 40 anos, e é mais comum entre mulheres e em populações que vivem mais próximas aos polos terrestres.

O quadro clínico dos pacientes depende da topografia das lesões, sendo mais frequentes as síndromes medulares, de tronco cerebral, neurite ótica, hemiparesias, paraparesias e monoparesias por acometimento do sistema nervoso central em vários níveis, síndromes sensitivas, cerebelares, esfincterianas e mentais.

Nos últimos anos, pesquisadores têm considerado o uso de terapias complementares e integrativas para melhorar a qualidade de vida de pacientes com EM tais como yoga, tai-chi e meditação, que podem ser benéficas para a saúde de seus praticantes. Vários estudos relatam efeitos positivos das práticas do yoga para pessoas com EM como, por exemplo, diminuição da fadiga e da espasticidade, que é o aumento do tônus muscular, evolução da capacidade cognitiva, redução do estresse e melhora do humor e da qualidade de vida.

Yoga

Nascido na Índia há três mil anos a.C., o yoga, que significa junção, integração, união, visa a supressão do turbilhão mental, levando o indivíduo a se auto perceber, integrando o corpo físico, mental e espiritual, de forma a atingir estados meditativos profundos.

Os estudos sobre os aspectos científicos do yoga iniciaram-se em 1924, em Kaivalyadhama, na Índia, com a proposta de verificar a real influência do yoga no corpo das pessoas e, a partir daí, vêm sendo ampliados face à perspectiva dos efeitos benéficos que essa prática possa ter na saúde e na prevenção de doenças. Recursos modernos permitem hoje determinar, por exemplo, modificações que ocorrem no cérebro durante a meditação.

Ao proceder a uma revisão sistemática para avaliar os dados disponíveis sobre o uso do yoga em pessoas com EM, o autor selecionou doze trabalhos realizados no exterior. Neles são recorrentes os efeitos benéficos para a fadiga, equilíbrio físico, marcha, alguns aspectos da qualidade de vida, dor, atenção, bexiga neurogênica, força funcional, satisfação sexual e estresse. Todos eles concluem que a prática do yoga trouxe algum benefício para pessoas com EM, não colocam restrições ao seu emprego e o apontam como potencial intervenção para uma população estimada no mundo em 2,5 milhões.

Pesquisa

Gerson vê sua pesquisa como o fechamento de um ciclo com um grupo de pessoas com EM que vem acompanhando há doze anos e que se iniciou depois de um curso de especialização em atividade motora adaptada, quando a professora Maria da Consolação G. C. F. Tavares, que o ministrava e viria a ser sua orientadora no mestrado e no doutorado, o convidou a responder a questão: o yoga seria uma boa prática para pessoas com EM?

Durante a especialização, conta ele, “formamos um grupo com sete pessoas realizando com elas uma prática por um período de quatro meses. Isso me valeu uma experiência extremamente rica porque os participantes tinham variados graus de comprometimento. Após o término dessa especialização, continuamos com as práticas e mais adiante surgiu a oportunidade do mestrado que teve o intuito de medir a influência do yoga no equilíbrio postural de pessoas com EM”.

Para tanto, foi formado um novo grupo experimental e também um grupo controle que não praticou yoga, para que pudessem ser estabelecidos parâmetros comparativos. Após a conclusão desse projeto, os grupos oriundos da especialização e do mestrado se uniram e permanecem até hoje realizando as práticas de yoga. Aproveitando as vivências e experiências de um trabalho desenvolvido durante 12 anos, no doutorado o autor procurou pavimentar o caminho para quem de alguma forma assiste ou trabalha com portadores de EM.

Um dos pontos fundamentais deste novo estudo envolveu uma pesquisa focal com oito elementos desse grupo com que vem trabalhando e paralelamente com outro composto por seis componentes com EM que não praticavam yoga. O objetivo foi o de saber como essas pessoas convivem física e psicologicamente com as situações decorrentes da EM no âmbito da família e da sociedade. O autor pretendeu descobrir como no dia-a-dia elas enxergam e enfrentam os problemas com que se deparam, como gostariam de ser tratadas e como passaram a se sentir a partir do momento do diagnóstico da EM. Mas, principalmente, enfatiza ele, “o mais importante foi descobrir o que precisamos conhecer por meio das suas próprias vozes para tratá-las. Que sensibilidades e conhecimentos técnicos devemos desenvolver para isso?”. Conhecer os problemas das pessoas com EM é fundamental para a família e para todos os profissionais que trabalham com elas.  Por isso, talvez um dos pontos cruciais da tese sejam os relatos dessas pessoas acometidas pela doença e que foram reproduzidos pelo autor.

A partir desses relatos ele destaca que os portadores de EM encontram dificuldade em identificar as sensações relacionadas especificamente à EM ou decorrentes de outros fatores; acham-se incômodos para as pessoas com que convivem e consideram que atrapalham principalmente suas atividades de lazer; os recém-diagnosticados com EM sentem dificuldades em participar de atividades com outros indivíduos com quadro avançado de incapacitação; sentem-se vítimas de preconceitos; a fadiga e a dor são os principais sintomas relatados que levam a maior comprometimento social e laboral; a parestesia, isto é, sensações cutâneas subjetivas, mostra-se muito estranha ao corpo; seus maiores temores são não poder andar e perder a autonomia;  consideram a atividade física e práticas corporais benéficas quando realizadas adequadamente.

O pesquisador dedica ainda um capítulo para registrar com minúcias os procedimentos que utilizou ao aplicar o yoga no tratamento de portadores de EM. “Procuro relatar minhas experiências na condução das práticas de yoga voltadas para membros do Grupo de Esclerose Múltipla de Campinas e Região (GEMC) e, em função delas, proponho o que considero importante ser observado e praticado. Espero que os relatos possam servir como guia para os que atendem, de alguma forma, portadores de EM”, diz ele. Para concretização desses objetivos sugere cuidados com o ambiente físico; relata aspectos da doença que devem ser considerados; menciona características mais apropriadas do yoga para o público a que se destina; e faz sugestões de técnicas. Destaca ainda a importância do profissional envolvido nessas práticas conhecer as principais características da EM e do yoga de forma integral, além dos aspectos físicos, psicológicos e existenciais das pessoas com que trabalhará.

Publicação

Tese: “Yoga como caminho de integração na abordagem de pessoas com esclerose múltipla: apontamentos e reflexões”
Autor: Gerson de Oliveira
Orientadora: Maria da Consolação G. C. F. Tavares
Unidade: Faculdade de Educação Física (FEF)

Fonte: Jornal da Unicamp