Doença incurável de Romero desaparece em ‘A Regra do Jogo’

Diagnosticado com esclerose múltipla, Romero (Alexandre Nero) voltará a sofrer com a doença na reta final de A Regra do Jogo, da Globo. Mas por que o personagem que teve visão dupla, bateu carro e desmaiou em motel por causa da enfermidade nunca mais apresentou nenhum sintoma? O sumiço da esclerose múltipla dos capítulos da novela das nove vem irritando telespectadores, que acusam a emissora de ter esquecido do assunto. Incurável e autoimune, a esclerose múltipla é uma doença complexa e que se apresenta de formas diferentes. Foi justamente por isso que o autor da trama, João Emanuel Carneiro, escolheu que seu anti-herói tivesse essa moléstia, já que um caso não pode ser comparado a outro, dando a ele um leque de possibilidades para trabalhar dramaturgicamente.

Carneiro diz que não esqueceu da doença de Romero. Adianta que personagem voltará a sofrer de esclerose múltipla, mas não revela de que forma. “Romero passou algum tempo sem os sintomas, mas o assunto está presente na trama, por exemplo, quando Toia [Vanessa Giácomo] pergunta como ele está se sentindo. Ela se preocupa com a saúde dele. Ascânio [Tonico Pereira] e Atena [Giovanna Antonelli] também falam sobre isso quando conversam com Romero ou mesmo entre eles. A esclerose múltipla tem algumas características que me permitem essa trajetória para o personagem. Ela pode deixar o doente em cima de uma cama como pode ficar um longo período sem se manifestar”, esclarece Carneiro.

Se a esclerose múltipla será a punição para Romero se regenerar no final da novela, o autor faz suspense: “A Regra do Jogo está em uma fase de grandes viradas e acontecimentos. A novela caminha para alguns desfechos. Ainda temos algumas semanas até o final, então, muita coisa ainda está por vir. Como adiantei, até o final da história, a doença voltará a se manifestar, é o que posso dizer por enquanto”, fala Carneiro.

 O fato é que o tratamento que A Regra do Jogo deu ao assunto até agora vem desagradando portadores da doença. Em um vídeo postado no YouTube, a paciente Kennia Ravaioli faz um desabafo. “Quando surgiu a possibilidade da novela falar sobre a doença, toda a comunidade ficou satisfeita, pois era algo desconhecido. As pessoas associam com demência e enlouquecimento, o que não é verdade”, diz ela no vídeo.

A expectativa, no entanto, virou frustração. “Só que a novela, o autor, os diretores, os profissionais que trabalham nesse meio, se perderam no assunto. [O tema] Ficou só nos capítulos primeiros. Romero teve desmaio, ficou com a visão turva e o médico até disse que ele pode virar uma samambaia. E mais nada o Romero sentiu. Ele passa por situação de estresse, pressão, espancamentos, tem duas mulheres, é uma máquina de fazer sexo. Romero Rômulo virou a cura da esclerose múltipla. Eu tenho medo, como portadora, de virar chacota. As pessoas não sabem a fadiga extrema que nós sentimos”, diz.

A neurologista Renata Simm, especialista em esclerose múltipla e AVC (Acidente Vascular Cerebral) e coordenadora o departamento de Neurologia do Hospital Santa Paula em São Paulo, explica que a doença atinge o sistema nervoso central, comprometendo o cérebro e a medula espinhal. Acomete, em sua maioria, pessoas com idades entre 20 e 40 anos. Mais mulheres do que homens são diagnosticadas com esclerose múltipla.

Cada caso é um caso

A médica diz que a doença é multifatorial e confirma que ela pode se apresentar de forma diferente caso a caso. O mais comum, que atinge 80% dos pacientes, é o surto remissão, que não tem evolução rápida. “Não é uma doença de comportamento agressivo em grande parte dos casos. Existem pacientes que vivem 20, 30 anos com a doença. Os casos mais graves, que chamamos de primariamente progressiva, representam de 5 a 10%. É quando o paciente fica em uma cadeira de rodas em um ano, por exemplo”, conta a neurologista.

Há vários tipos de tratamentos, todos com medicamentos de alto custo que são fornecidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde). As drogas custam entre R$ 4.000 e R$ 6.000 por mês. Os tratamentos proporcionam melhor qualidade de vida aos pacientes. “O que se espera de um paciente em tratamento é que ele tenha de um a dois surtos por ano. Se tiver três ou quatro, significa que o tratamento não está tendo o efeito desejado, controlando a doença”,  comenta a especialista.

REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Alexandre Nero em cena de desmaio do seu personagem no começo da trama

Renata diz que logo que A Regra do Jogo estreou muitos de seus pacientes questionaram os desmaios e perda de consciência de Romero, se eram mesmo sintomas da esclerose múltipla. “Não é comum, a gente nem cita. Não sei onde o autor foi buscar esse dado. Claro que na medicina tudo pode acontecer, mas não é comum.”

A pedido do Notícias da TV, o psicanalista e psicoterapeuta corporal Sergio Savian analisou a trajetória de Romero na trama. Ele aponta que, diante de tudo o que aconteceu, para compensar, o protagonista deveria ter uma recaída fatal com a doença se manifestando de forma avassaladora.

Para o psicanalista, existe coerência entre a personalidade de Romero e a doença que ele apresenta. Os portadores da esclerose múltipla costumam ter uma desconexão básica de si mesmos, de suas próprias necessidades. “Diante das injustiças do mundo, da vontade e impossibilidade de mudá-lo, usam toda a agressividade contra eles mesmos. Assim, o indivíduo doente canaliza as suas forças para a autodestruição. No fundo, Romero não gosta de si, não se aceita do jeito que é, vive em conflito com isso. E uma forma de se punir seria desenvolvendo esta doença autoimude, voltando-se contra si mesmo”, analisa Savian.

Fonte: Tribuna Hoje