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Líbero Pará supera paralisia e se torna um dos destaques da Superliga

Jogador do Campinas encarou drama em 2011, e chegou a receber diagnóstico de esclerose múltipla. Recuperado, ele é um dos principais jogadores do Campinas

Um jogador de 21 anos e com apenas 1,70 m de altura, e que quase teve de encerrar a carreira por conta de um problema de saúde, é destaque da equipe de Campinas que disputa a Superliga Masculina de vôlei. O líbero Pará teve de superar, em 2011, uma paralisia.

– Eu acordei e minha mão estava um pouco encurvada, e sentia que ela não tinha movimento. Ela ficou meio travada. Naquela ocasião eu pensei “dormi em cima do braço”, mas o movimento não voltou assim – lembra Pará.

Só que não era apenas a mão do jogador, mas sim todo o lado esquerdo do corpo que estava paralisado. A revelação do diagnóstico inicial caiu como uma bomba.

– Na época eu passei por vários cardiologistas, e um deles deu o diagnóstico de esclerose múltipla. Eu lembro que foi uma palavra bem dura que ele falou: “Você tem que viver como puder”. Eu nunca esqueço isso, porque eu falei com a minha mãe: “Eu vou morrer, é isso”.

Pará, líbero do Campinas (Foto: Divulgação Brasil Kirin)Pará ficou com lado esquerdo paralisado após anticorpos atacarem seu cérebro (Foto: Divulgação Brasil Kirin)

Só meses depois Pará descobriu que o diagnóstico era menos assustador. Ele tinha sofrido uma gripe e os anticorpos produzidos pelo próprio organismo, ao invés de atacarem o vírus, atacaram o cérebro do jogador.

– As partes mais difíceis de passar por tudo isso foi o momento em que pensei que era um deficiente. Eu não tomava banho, eu não comia, não ficava sentado.

O processo de recuperação foi lento. Quando foi liberado para jogar Pará voltou a Belém e começou a treinar em uma equipe local.

– Eu voltei a jogar mas, mesmo assim, não sentia meus dedos. Eu conversava com o técnico, e ele pedia tempo para não deixar eu cansar – relembra o jogador.

Pará está 98% recuperado, ainda não sente os movimentos da mão esquerda quando joga em dias de temperaturas mais baixas. No cotidiano, o libero teve de se readaptar e quase não usa o lado esquerdo do corpo. A não ser quando está em quadra. Quem entende de vôlei garante que essa diferença sequer é notada.

– Uma força de vontade, ele se superou. Essa melhora é exclusivamente pela cabeça e pela vontade que ele tem de ser atleta – diz Silvio Forti, técnico das categorias de base do Pinheiros.

Quanto ao Campinas, a equipe do líbero Pará está classificada para os play-offs da Superliga Masculina. O adversário do time paulista é o Minas.

Fonte: SporTV News

 

 

Portuguesa leva tocha olímpica

Melanie Oliveira é gestora de clientes da British Airways e sofre de esclerose múltipla. A sua história de vida, contada pelos colegas, foi a escolhida de entre 500 histórias de funcionários da companhia aérea: agora, Melanie vai transportar a tocha olímpica em Londres.

Filipa Couto

“Nem quis acreditar quando me ligaram, fiquei eufórica. Só acreditei quando me enviaram um e-mail a confirmar.” Esta oportunidade tem um significado particular para Melanie, de 38 anos. “Tenho muito orgulho em representar os doentes crónicos portugueses. É algo único. Quero, acima de tudo, transmitir força, coragem e esperança a todos. Quando o meu filho [de oito anos] for crescido, vai perceber o significado da experiência da mãe”. Melanie parte para Londres na segunda-feira, e na comitiva seguem 15 pessoas, entre família e amigos. O regresso está marcado para o dia seguinte.

Foi há dez anos que Melanie descobriu que sofria de esclerose. “Levantei-me um dia de manhã e tinha o braço dormente. Mas não desisti. Apesar das dores musculares e da fadiga que me consome, não abdico de alguns prazeres, como viajar”. “Nunca me rendi à doença, sou corajosa, com sede de viver, porque quero acompanhar o crescimento do meu filho”, garante Melanie.

Fonte: Correio da Manhã

‘Turistas das células-tronco’ viajam em busca de tratamentos

Quando Robert Ramirez foi diagnosticado com a doença de Parkinson em 2006, seu médico lhe deu os remédios, mas pouca esperança: “ele me disse que não havia muito a se fazer exceto esperar a ‘passagem para o outro lado.'”

Ramirez, mecânico peruano-americano do norte de Nova Jersey, acompanhou desamparado seus sintomas piorarem. Seu braço esquerdo ficou cada vez mais fraco. Os músculos da perna se enrijeceram. Seu tremor se intensificou. Foi quando sua esposa, Elvira, viu Jorge Tuma em um noticiário peruano.

O médico peruano, em Lima, afirmou que tratava Parkinson e outras doenças com injeções de células-tronco. Eles verificaram em seu site: por US$ 6 mil, conseguiriam um tratamento. Reservaram um vôo para Lima.

Ramirez faz parte de um número crescente de pacientes que buscam terapias com células-tronco fora dos Estados Unidos – especialistas estimam que sejam milhares. E Tuma é mais um entre dezenas de médicos não-americanos a oferecer esse tratamento. A tendência se tornou significante o bastante para que a Sociedade Internacional de Pesquisa em Células-Tronco (ISSCR) publicasse recentemente diretrizes para médicos e aspirantes a “turistas das células-tronco.”

Especialistas americanos temem que haja médicos tratando imprudentemente pacientes sem esperar por ensaios clínicos que garantam a segurança dos procedimentos.

“Há muitos médicos se aproveitando do senso comum a respeito do potencial de cura das células-tronco em países com regulação médica mais frouxa,” disse Sean Morrison, diretor do Centro de Biologia de Células-Tronco da Universidade de Michigan e tesoureiro da ISSCR. “Mas os detalhes do tratamento com células-tronco são muito mais complicados.”

Entretanto, as terapias com células-tronco estão se tornando uma área lucrativa do turismo médico, apesar da ciência ainda precisar revelar seu potencial e das controvérsias ainda infestarem o campo.

Essas células, encontradas em embriões e em certos tecidos adultos, têm o potencial de se desenvolver em diferentes tipos de células. Mas as questões éticas quanto ao uso de embriões como fontes de células-tronco diminuíram o ritmo das pesquisas em países como EUA e Reino Unido. Pesquisadores nos EUA conduzem ensaios clínicos para tratamentos tanto com células adultas quanto embrionárias, mas o órgão americano responsável pela regulação médica, o FDA, ainda precisa licenciar qualquer tratamento.

Guia turístico
As novas diretrizes da ISSCR requerem que todo tratamento seja avaliado por especialistas sem qualquer interesse especial no procedimento. O guia também defende um processo consentido, no qual os pacientes teriam informações completas sobre o tratamento e transparência nos relatórios de resultados dos ensaios clínicos.

O manual para pacientes do ISSCR alerta sobre tratamentos experimentais com células-tronco – aqueles que não fazem parte de nenhum ensaio clínico oficial. Ele também alerta para sinais de tratamento duvidoso, como a alegação de que múltiplas doenças podem ser tratadas com o mesmo tipo de célula.

Essa é apenas uma das várias afirmações otimistas usadas por médicos de vários países, geralmente em seus sites.

Timothy Caulfield, do Instituto de Direito da Saúde da Universidade de Alberta, pesquisou 19 sites oferecendo tratamentos com células-tronco e divulgou seus resultados esta semana. Dez sites descreveram o tratamento como “pronto para o acesso público,” ao invés de experimental. Muitas pessoas descobrem as ofertas de tratamento com células-tronco através de “publicidade direta ao consumidor” na Internet, ele disse.

“E existe um descompasso entre o que está sendo oferecido e o que a literatura científica existente diz,”afirmou Caulfield. “Aqueles que oferecem os tratamentos possibilitam a escolha entre duas coisas: o entusiasmo genuíno acerca das pesquisas com células-tronco e a controvérsia social em torno delas.”

As clínicas cobram em média US$ 21,5 mil pelo tratamento com células-tronco, observou a pesquisa, mas as últimas notícias indicam que clínicas na China podem cobrar até US$ 70 mil.

Pesquisadores descobriram que tratamentos com células-tronco não-comprovados também podem causar complicações para os pacientes. Em 2006, o neurologista Bruce Dobkin, da Universidade da Califórnia, Los Angeles, descobriu que alguns pacientes haviam contraído meningite após operações para lesões crônicas na medula espinhal. Complicações no sistema nervoso e infecções também foram registradas após a utilização de células-tronco no tratamento de doenças do sangue.

Caulfield disse que nem todos os médicos oferecendo terapias com células-tronco são charlatões, mas acredita que qualquer um vendendo um tratamento deveria publicar dados que sustentem suas alegações.

“Ainda há barreiras científicas reais para essas pesquisas – mesmo os principais pesquisadores de células-tronco da Universidade de Stanford e no Reino Unido encontram dificuldades nos ensaios clínicos,” disse Caulfield.

Nas trincheiras
Tuma, o cardiologista procurado por Ramirez, com mal de Parkinson, promete restaurar órgãos e tecidos enfermos usando células-tronco adultas coletadas do próprio corpo do paciente.

Desde 2005, Tuma já tratou cerca de 600 pacientes ¿ em torno de um quarto vindo de fora do Peru – com doenças como Parkinson, diabetes tipo 2 e enfisema. Seu método: injetar o órgão afetado com células-tronco da medula óssea do próprio paciente.

“Sempre digo a meus pacientes que isso não é uma cura, mas acredito que seja uma nova alternativa tremenda para melhorar a qualidade de vida,” disse Tuma.

Ele operou Ramirez em outubro de 2007, em um procedimento simples que durou 45 minutos. Tuma extraiu e preparou as células da medula óssea da espinha de Ramirez e as injetou em uma artéria no cérebro. A partir daí, disse Tuma, elas começaram a gerar novas células que inibiriam o avanço da doença.

Em uma semana, Ramirez disse que começou a notar que suas pernas estavam menos rígidas. Depois, seu braço esquerdo voltou a ter certa força. Ele se sente melhor que antes da operação e seus sintomas são menos identificáveis.

“Posso dançar com minha esposa e viver uma vida quase normal” disse Ramirez. “Sou muito grato ao doutor Tuma.”

Como muitos médicos oferecendo esses tratamentos, os procedimentos de Tuma não foram sancionados pelo governo de seu país. Apesar de ter publicado resultados menores de suas terapias cardíacas em revistas científicas, incluindo o Journal of Cardiac Failure and Cardiovascular Revascularization Medicine, ele ainda não publicou artigos sobre a eficácia de seus outros tratamentos.

De acordo com Insoo Hyun, professor de bioética da Universidade de Case Western Reserve e presidente da Força-Tarefa para Diretrizes em Células-Tronco da ISSCR, cobrar pacientes por tratamentos não-comprovados é considerado antiético.

“Ou você realiza pesquisas ou oferece uma terapia reconhecida, mas alguns desses médicos parecem querer fazer tudo ao mesmo tempo,” disse Hyun.

Sem tempo a perder
Timothy Henry, cardiologista do Instituto do Coração de Minneapolis/Hospital Abbott Northwestern, está autorizado pelo FDA a conduzir ensaios clínicos aleatórios com células-tronco adultas para doenças cardíacas. Ele já tratou 150 pessoas e disse que os dados preliminares são promissores. Mas os Estados Unidos têm ficado para trás na área devido às preocupações éticas levantadas sobre a pesquisa com células-tronco embrionárias, admite.

“A pesquisa com células-tronco adultas tem sido um desafio com a falta de informação e confusão a respeito das células embrionárias,” disse Henry. Porém, pacientes desesperados como Ramirez estão relutantes em esperar provas concretas e a aprovação do FDA.

Roberto Brenes é outro médico que realiza implantes de células-tronco adultas. Ele atrai pacientes até uma clínica em San José, Costa Rica, por meio do site cellmedicine.com. Ele e seus colegas já trataram entre 50 e 70 pacientes com esclerose múltipla usando células-tronco retiradas do tecido adiposo, cobrando entre US$ 15 mil e US$ 25 mil, com “índices de sucesso muito bons,” segundo Brenes.

Embora Brenes reconheça que nunca houve ensaios clínicos demonstrando a eficácia da terapia para esclerose múltipla, ele disse que muitos pacientes não querem esperar.

“A área vai progredir muito nos próximos 10 a 15 anos, mas vários pacientes precisam de ajuda terapêutica agora e querem passar pelo procedimento,” disse Brenes.

Mesmo se isso significar custosas visitas de acompanhamento: Tuma recomendou que Ramirez voltasse a cada seis meses para acompanhar o seu progresso. E disse que se os sintomas da doença de Parkinson retornassem, outro procedimento seria necessário.

“Sei que a terapia não é uma cura completa, mas não a acho perigosa e faria novamente,” disse Ramirez.

Morrison, da ISSCR, entretanto, permanece cético. “Vários pacientes vão gastar US$ 6 mil para comprar esperança, mas ainda assim não é certo vender poções milagrosas.”

Fonte: Terra

Internet melhora desempenho do cérebro, diz estudo

Atividade cerebral de usuário experiente da internet ao ler um livro
Atividade cerebral de usuário experiente da internet ao ler livro

Um novo estudo americano sugere que pessoas na meia-idade ou mais velhas aumentam o poder de seus cérebros com o uso da internet.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia-Los Angeles descobriram que a busca de dados pela rede estimula centros do cérebros que controlam a tomada de decisões e o raciocínio complexo.

Segundo os cientistas, isso pode até ajudar no combate a mudanças fisiológicas relacionadas à idade que levam o cérebro a ficar mais lento.

Com o envelhecimento, o cérebro passa por uma série de mudanças, incluindo o encolhimento e redução na atividade celular, o que pode ter um impacto no desempenho cerebral.

Acreditava-se que atividades como palavras-cruzadas ajudariam a manter o cérebro ativo e também a minimizar o impacto do envelhecimento. O novo estudo sugere que surfar pela internet também pode ser uma destas atividades.

“Os resultados do estudo são encorajadores, as tecnologias que estão surgindo podem ter efeitos fisiológicos e benefícios potenciais para adultos de meia-idade ou mais velhos”, diz o professor Gary Small, que liderou a pesquisa.

“As buscas na internet envolvem uma complicada atividade cerebral, que pode ajudar a exercitar o cérebro e melhorar as funções cerebrais”, acrescenta Small.

O estudo foi publicado na revista American Journal of Geriatric Psychiatry.

Exames

Os cientistas trabalharam com 24 voluntários com idades entre 55 e 76 anos. Metade era formada por usuários experientes da internet. Cada voluntário teve o cérebro examinado enquanto fazia buscas na internet e lia livros.

Os dois tipos de tarefas deram provas de uma atividade significativa em regiões do cérebro que controlam linguagem, leitura, memória e habilidades visuais.

Atividade cerebral de usuário experiente ao fazer buscas na internet
Atividade cerebral de usuário experiente ao pesquisar na internet

No entanto, a busca na internet produziu atividade adicional em áreas separadas do cérebro, que controlam a tomada de decisões e raciocínos complexos, mas apenas nos voluntários que eram usuários experientes da internet.

Segundo os pesquisadores, comparando com a simples leitura, as múltiplas escolhas da internet exigem que as pessoas tomem decisões a respeito do que clicar para conseguir informações relevantes.

Os cientistas sugeriram, porém, que os usuários inexperientes da rede não conseguiram compreender bem as estratégias necessárias para uma busca bem-sucedida.

“Uma tarefa simples, cotidiana, como fazer buscas na internet, parece intensificar os circuitos cerebrais nos adultos mais velhos, demonstrando que nosso cérebro pode continuar a aprender à medida que envelhecemos”, afirma Small.

“Essas descobertas fascinantes se somam a pesquisas anteriores e sugerem que pessoas de meia-idade ou mais velhas podem reduzir o risco de sofrer de demência ao praticar regularmente atividades cerebrais estimulantes”, diz Rebecca Wood, diretora-executiva da organização Alzheimer’s Research Trust.

“Interação social frequente, prática regular de exercícios e a manutenção de uma dieta balanceada também podem reduzir o risco de demência”, acrescenta Wood.

No entanto, para Susanne Sorensen, chefe de pesquisas da Alzheimer’s Society, “ainda há poucas evidências de que manter o cérebro ativo por meio de palavras-cruzadas, jogos e outras atividades” pode reduzir o risco de demência.

Fonte: BBC Brasil

Pacientes checos pagam US$1,80 por consulta médica – e acham caro

População acredita que assistência médica deve ser gratuita, como na época comunista. Número de consultas em todo o país caiu depois da adoção de taxas.

Na República Checa, você pode fazer uma consulta médica por cerca de $1,85 dólares. Um dia no hospital pode chegar a custar $4 dólares. Mas isso não é motivo para comemorar.

Para os checos, que freqüentam consultórios médicos mais vezes do que qualquer outro país europeu, isso levou a uma enorme revolta. Na verdade, a idéia de cobrar qualquer quantia por assistência médica pode gerar enorme controvérsias, sem mencionar mudanças abruptas nas políticas de saúde pública na República Checa e em outros países da Europa.

Na Hungria, as taxas de assistência médica foram derrubadas após um referendo nacional no mês de março, que resultou na demissão do Ministro da Saúde. Na República Checa, que começou a impor taxas modestas no começo do ano, o próprio Primeiro Ministro foi forçado perante a corte constitucional em Brunn a depor, enquanto a corte avaliava derrubar as taxas. No mês passado, a corte determinou que o governo tem o direito de cobrar taxas de pacientes que usam o sistema de assistência médica.

Países ricos e pobres lutam para descobrir a melhor forma de oferecer assistência médica acessível a seus cidadãos, sem ir à falência. Em lugares como a República Checa, há um sentimento de traição, porque o governo há muito tempo cuida da saúde, mas também um medo justificável pelos anos recentes de mudança e crescimento. Até mesmo em Praga, conhecida como a cidade dourada, a nova riqueza – e o aumento da expectativa por serviços de alto padrão – significou apenas preços mais altos para aquela população dependente de salários baixos e pensões fixas.

“Tenho que economizar para ter dinheiro para comer”, disse Kveta Lachoutova, 78 anos, uma viúva aposentada. Em uma entrevista na sala de espera do consultório médico, ela afirmou estar tentando viver com uma pensão de cerca de US$ 600, gastando cerca de US$ 400 em aluguel e serviços como água e luz. “Não compro nada mais”.

Para pessoas saudáveis e empregadas, as taxas representam praticamente um trocado, pagas com as mesmas moedas de 10 ou 20 coroas usadas para comprar um bilhete de bondes elétricos em Praga (1 dólar vale cerca de 16 coroas). Checos abastados admitem secretamente que gastam muito mais em cuidados veterinários para seus bichos de estimação do que com sua própria assistência médica, mesmo tendo que bancar alguns medicamentos.

No entanto, muitos checos vêem como uma questão de princípio o fato de que a assistência médica deveria ser gratuita – apesar de que o sistema de saúde é financiado em parte por deduções de imposto de renda. Além disso, os checos têm um forte senso de solidariedade com os mais pobres.

Sob o regime comunista, a assistência médica era gratuita, mas até certo ponto. Suborno para obter melhores condições de tratamento era uma prática comum e ainda pode ser um problema, particularmente na Hungria, onde ainda continua vigente.

A região tem sido um laboratório para reformas na assistência médica nos últimos anos. O esforço foi liderado por defensores do livre-mercado da próspera Eslováquia, que se beneficia de taxas de imposto uniformes para todos os cidadãos e um crescimento econômico bastante acelerado, na casa dos 10% no ano passado.

A Eslováquia introduziu pagamentos modestos para consultas médicas e diárias hospitalares em 2003. Mas, como aconteceria mais tarde na Hungria, as taxas não duraram muito. O governo de esquerda que chegou ao poder em 2006 as eliminou naquele mesmo ano, apenas alguns meses depois de tomar posse.

“O que queremos alcançar no sistema de saúde é uma responsabilidade individual maior, fazendo com que os consumidores sejam mais responsáveis pelo que consomem”, disse Peter Pazitny, diretor-executivo e um dos sócios fundadores do Instituto de Políticas de Saúde na Bratislava, antes o principal conselheiro do Ministro da Saúde da Eslováquia.

A necessidade de uma reforma na região é evidente, disse Pazitny. Estatísticas da Organização pela Cooperação e Desenvolvimento Econômico demonstram que os sistemas de saúde da República Checa, da Eslováquia e da Hungria estão entre os piores de todos os países membros em relação à expectativa de vida e à taxa de mortalidade para derrames, doenças cardíacas e câncer.

O governo checo foi receptivo às recomendações do Instituto de Política de Saúde e até emprega outro colega de Pazitny em Praga. Mas os membros da oposição preferem que o antigo compatriota os deixe em paz – e também o sistema de saúde pública.

“Eu entenderia se os rapazes eslovacos fizessem recomendações como se fosse um trabalho de faculdade, mas aqui eles estão introduzindo essas coisas na vida real”, disse Michal Hasek, líder da convenção partidária Social Democrata, o maior partido de oposição no Parlamento.

A constituição checa afirma que “cidadãos têm direito, através do seguro público de saúde, a assistência médica gratuita nas condições definidas por lei”. Os novos pagamentos não só são inconstitucionais, segundo Hasek, mas também têm causado sofrimento real em alguns segmentos da população. A oposição e a mídia local transformaram a imagem de bebês prematuros em incubadoras, cujos pais devem pagar os custos hospitalares, em símbolos do novo sistema.

Especialistas discordam na questão de que taxas pagas para consultas médicas são uma boa idéia, sob a ótica da saúde pública, e até questionam se elas representam grandes economias para o sistema de saúde em geral. “Serviços mais caros e desnecessários não são exigidos pelos pacientes, mas sugeridos pelos médicos somente para gerar mais receita para eles”, afirmou Peter Gaal, professor de políticas de saúde na Universidade Semmelweis em Budapest.

As taxas daqui, $1,85 dólares por uma prescrição e consulta médica, e $4 dólares para um dia no hospital, claramente estão produzindo efeitos no comportamento dos checos. O Ministro da Saúde disse que o número de prescrições caiu 40% no primeiro trimestre, apesar de que algumas delas podem ter sido resultado de estocagem no final do ano passado. O governo calculou que seguradoras públicas economizaram mais de US$ 100 milhões no primeiro trimestre, em comparação ao ano anterior, enquanto fornecedores arrecadaram US$ 62 milhões em taxas.

“Tentamos eliminar do sistema de saúde alguns custos que as pessoas podem pagar sozinhas”, disse Tomas Julinek, Primeiro-Ministro da República Checa, em uma entrevista no seu gabinete. Mas existe um teto para pagamentos, ajustado em mais de US$ 300 para o ano, que Julinek afirma que também protegeria as doenças graves.

Vários pacientes crônicos afirmaram não ter certeza como o teto funcionaria, ou exatamente quais custos estariam incluídos. “Até agora, só vejo e sofro o lado negativo”, disse Lenka Vondrackova, paciente de esclerose múltipla que luta para sobreviver junto a seu marido e seus dois filhos adolescentes com cerca de US$ 1.200 por mês, a soma do seu salário e da pensão pela deficiência.

Eles vivem apertados em um apartamento minúsculo em um edifício da época comunista em Cerny Most, um bairro afastado na parte leste de Praga. Seu regime de remédios exige cinco comprimidos pela manha, um spray nasal uma vez ao dia e mais três comprimidos à noite, bem como uma injeção aplicada por seu marido ou um de seus filhos. Antes das reformas, eles conseguiam economizar um pouco a cada mês.

“Agora, tudo o que sobrou foi dominado pelas taxas”, disse o marido Pavel.
“Acredito que no futuro ficará evidente que haverá mais dinheiro para equipamentos e remédios melhores”, disse ela, torcendo por uma pílula que pudesse substituir a injeção dolorosa que toma todas as noites. “Se funcionar…”, acrescentou, desviando o olhar, dividida entre o ceticismo e a esperança.

Fonte: G1